
O Papa Francisco lançou, em outubro de 2024, a sua quarta e última encíclica, intitulada Dilexit nos (“Amou-nos”), um profundo apelo à humanidade para redescobrir o valor do amor, da compaixão e da interioridade, numa sociedade cada vez mais dominada pelo consumo, pela violência e pelo vazio existencial.
Numa altura em que os avanços tecnológicos, nomeadamente a inteligência artificial, parecem ditar o ritmo das nossas vidas, Papa Francisco lembrou que “a poesia e o amor são necessários para salvar o humano”.
A encíclica convida todos os fiéis — e a sociedade em geral — a voltarem o olhar para o Coração de Jesus, símbolo do amor gratuito e desinteressado que nos foi oferecido.
O texto, dividido em 220 pontos, denuncia “uma sociedade sem coração”, mergulhada no narcisismo, na autorreferencialidade e na superficialidade.
“Hoje tudo se compra e se paga, e parece que o próprio sentido da dignidade depende das coisas que se podem obter com o poder do dinheiro”, escreveu o Papa.
A sua crítica estende-se a um sistema que aprisiona as pessoas às suas “necessidades imediatas e mesquinhas”, esquecendo a beleza das relações humanas verdadeiras e da solidariedade.
O Santo Padre lamenta ainda o cenário global marcado por “sucessivas novas guerras” e uma aparente perda de sensibilidade por parte das nações, dominadas por interesses políticos e económicos.
Contra esta realidade, Francisco propôs o “amor gratuito” de Cristo como alternativa à lógica da violência e da indiferença.
Com referências que vão desde os clássicos Homero e Dostoievski até a pensadores contemporâneos como Byung-Chul Han, o Papa Francisco alertou para os perigos de uma humanidade previsível e manipulável, moldada por algoritmos e pelo ruído digital. “Não é o caso do coração”, sublinha.
Dilexit nos convida a Igreja e o mundo a reencontrarem-se com a “verdade íntima de cada pessoa”, frequentemente abafada por um quotidiano apressado e disperso. O Papa insistiu na importância de promover comunidades com espaço para o diálogo, a escuta e a compaixão, desafiando-nos a sermos “corações capazes de compaixão”.
A encíclica termina com uma oração que é, ao mesmo tempo, um clamor: que o mundo, “que sobrevive entre guerras, desequilíbrios socioeconómicos, consumismo e o uso anti-humano da tecnologia, recupere o que é mais importante e necessário: o coração”.
Com esta encíclica, publicada na reta final do Sínodo dos Bispos (2021-2024), o Papa Francisco encerrou o ciclo iniciado com Lumen fidei (2013), seguido por Laudato si’ (2015) e Fratelli tutti (2020).
Dilexit nos representa um forte apelo pastoral e espiritual, convidando-nos a reencontrar, no Coração de Jesus, a bússola para um mundo mais humano, fraterno e com esperança.