Família Igreja Doméstica Testemunha da Esperança

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Orar, às vezes, pode ser perigoso. Pode até afastar-nos de Deus. Pode levar-nos a adorar um ídolo. É o Mestre que o diz, com mais uma parábola provocadora: a do fariseu e do publicano que vão ao templo para orar. Mas não nos apressemos a colocar-nos do lado do publicano, por não querermos ser conotados com o fariseu. Moralmente falando, os fariseus eram melhores que os publicanos. Os fariseus eram pessoas rectas, honestas, enquanto geralmente os publicanos eram corruptos, desonestos. Qualquer um de nós sentir-se-ia melhor na companhia de um fariseu que de um publicano... 

Acompanhemos, pois, a oração do fariseu. Está em pé, cheio de altivez; parece ocupar todo o espaço do templo. Faz uma prece bem elaborada. Mas, mais que oração, é uma relação das suas virtudes, das suas boas obras: «eu jejuo», «eu pago», «eu cumpro» ... E, sobretudo, ele reza a sua superioridade face aos demais humanos. «Eu não sou como os outros: ladrões, injustos, adúlteros». O centro da sua oração não é Deus, mas o «eu»! Na verdade, ele não ora a Deus; reza a si mesmo, ao seu Ego, ao Ídolo que está dentro dele. (Curiosamente, o original grego não diz: «orava interiormente», mas: «orava para si».)

O publicano, de sua parte, ocupa no templo um espaço reduzido. Cabisbaixo, batendo no peito, a sua oração é apenas um gemido: «Tem compaixão de mim, pecador!». Reconhece aquilo que é: pecador (ladrão, desonesto).

Conclusão de Jesus: o publicano voltou para casa «justificado»; o fariseu regressou como chegou: apenas cheio de si!...

O contraste não podia ser maior. Nem mais provocador! Os fariseus não eram só honestos. Do ponto de vista religioso, eram ‘irrepreensíveis’ (como de si mesmo dirá S. Paulo): cumpriam a lei divina até aos mínimos detalhes. Faziam até mais, como este fariseu que jejuava duas vezes à semana (a lei obrigava apenas a uma). Mas, então, porquê tanta polémica entre Jesus e os fariseus? A parábola ilustra bem a razão.

Pelo estrito cumprimento da lei, os fariseus criam-se mais próximos de Deus que o resto da gente, de quem se sentiam ‘separados’ (‘fariseu’ quer dizer ‘separado’, ‘puro’). Acreditavam que o seu legalismo e ‘pureza’ apressariam a chegada do Reino de Deus. Por isso, desprezavam a gente simples, ‘ignorante da lei’. O seu círculo de relações excluía qualquer categoria de ‘impuros’: pecadores, leprosos, prostitutas, colaboradores do poder romano (como os publicanos), etc. Sentiam-se, portanto, acima dos outros, não contaminados pelas suas fragilidades e misérias.

Os publicanos (dentre os quais Jesus chamou  Mateus) eram judeus ao serviço do poder romano, cobradores de impostos. Por isso mesmo, odiados pela maioria do povo, e duplamente pelos fariseus. Muitos enriqueciam, cobrando mais que o devido. Ricos de dinheiro, porém pobres de humanidade, de relação. Não estranha que Zaqueu (rico, publicano) procurasse ‘ver’/encontrar Jesus a todo custo.

O fariseu da parábola não precisa de Deus. O cumprimento da lei já lhe garante a salvação. Não busca a Deus como um filho confiante busca o Pai. Deus serve-lhe apenas de espelho, para confirmar a sua presunção de ‘bom’. 

O publicano sente-se ‘pequeno’, necessitado de Luz, de Redenção. Fala a Deus a partir da verdade do seu coração. Por isso, volta para casa «justificado» (por Deus), transformado. O fariseu, que já se achava «justo», volta de mãos vazias. A oração transforma o publicano, porque ele se abre ao Fluxo de Amor e Misericórdia, que é Deus.

Por séculos, reinou na Igreja a espiritualidade do ‘mérito’. Devíamos praticar boas obras, para ‘merecer o céu’. A salvação era mais conquista nossa, que dom de Deus. Isso ajudou a criar não poucos ‘fariseus’ nas comunidades cristãs. Ainda hoje, ouvimos cristãos rezar pelos ‘pobres pecadores’, de quem se sentem ‘separados’ pela prática de preceitos religiosos. O espírito farisaico faz-nos sentir espiritualmente superiores aos outros; leva-nos a julgar os outros pelas suas fraquezas. Impede-nos de ver o que todos somos: seres frágeis, mendigos de Luz e de Misericórdia.

O Mestre hoje nos diz: deixa que o fariseu que existe em ti (pequeno ou grande) seja redimido. Basta que não te aches ‘melhor’ que os outros. Que busques a Luz com a humildade do publicano. Que te relaciones com Deus a partir da verdade de ti mesmo. Basta que aprendas —com Deus— a olhar os outros com Compaixão; a dar Misericórdia ao pecador que habita em ti.

(João Pedro Fernandes, CSsR)