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O que está por detrás do Mistério Pascal que celebramos ao longo de cinquenta dias? Por detrás da morte e ressurreição de Jesus?

As respostas podem ser várias. O evangelista João dá-nos hoje uma muito sugestiva: por detrás dessa morte está o amor de Alguém que nos ama como Bom Pastor. Esse amor levou-o a dar a vida por nós; mas Deus o ressuscitou. Agora ele é o Vivente, que a todos vivifica. Ontem como hoje, a imagem do pastor que se dedica ao rebanho fala ao coração. O pastor conduz o rebanho às fontes de vida (pastagens e água) e defende-o de possíveis perigos mortais (animais ferozes). 

O pastor cuida e protege. Dedica-se com afecto ao rebanho. Na tradição bíblica, Deus é o grande Pastor de Israel: tirou-o da situação de morte no Egipto, alimentou-o no deserto, conduziu-o à terra prometida, lugar de vida e de liberdade. Também os líderes do povo foram chamados de pastores. Mas estes nem sempre se dedicaram com afecto ao seu povo. Muitas vezes usaram-no e manipularam-no, segundo os seus interesses. Pela boca do profeta Ezequiel, Deus denuncia essa situação e reclama par si a condição de verdadeiro Pastor do seu povo: «Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas. Procurarei a que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado. Cuidarei da que está ferida, tratarei da que está doente. Velarei sobre a que está gorda e forte» (Ez 34,15-26). Um pastor com sentimentos maternos!

Não estranha que Jesus se atribua o título de «Bom (kalós) Pastor». O termo grego kalós significa ‘belo’, ‘verdadeiro’, ‘precioso’, ‘maravilhoso’. Jesus é Pastor Verdadeiro, em contraste com o pastor-assalariado ou «mercenário». A este interessa o seu ganho, não tanto o cuidado das ovelhas. Por isso, foge diante do perigo. Para o mercenário, as ovelhas são objectos. Para Jesus, as ovelhas são sujeitos — e habitam o seu coração. «Conheço minhas ovelhas, e minhas ovelhas me conhecem».

‘Conhecer’, na bíblia, indica a mais íntima relação entre dois sujeitos (o mesmo verbo é usado para a relação íntima entre marido e mulher). Mais ainda. Tão preciosos somos para o Pastor Precioso, que a relação que tem connosco é comparável à relação que ele tem com o Pai: «... do mesmo modo que eu conheço o Pai e o Pai me conhece»! Não é questão de mero sentimento. É questão muito alta, de vida ou morte. Ou, melhor, de morte e vida, de morrer para dar vida: «Eu dou a vida pelas minhas ovelhas». «Dar a vida» (repetido cinco vezes no evangelho de hoje!) é o que faz de Jesus Único, Autêntico, Bom Pastor. «Dar a vida» pela humanidade é também o gesto que sela a relação amorosa  entre Jesus e o Pai: «Por isso o Pai me ama: porque dou a minha vida. 

Ninguém ma tira, sou eu que a dou. Tenho o poder de a dar e de a receber de novo. Foi esse o mandamento que recebi de meu Pai». A morte na cruz foi o acto supremo do «dar a vida», amor levado ao extremo. Não foi uma fatalidade, não foi destino. Foi um gesto realizado conscientemente por Jesus, na liberdade e por amor. Afinal, toda a vida de Jesus foi um dispor de si para os outros, até depor a própria vida, «para que todos tenham vida, e vida em abundância» (Jo 10,10). 

Mas não é só na morte que ele nos dá a vida. Com a sua ressurreição, faz-nos participar da vida divina (ou «vida eterna», a vida do Eterno), JÁ, AGORA! Semeia em nós germes divinos, que nos encaminham para a plenitude. «É em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença» (Act 4,10: segunda leitura). É para aí que o nosso Pastor, terno e forte, nos guia. Para termos «vida em abundância», JÁ! Todos nós somos seres frágeis. Em vários momentos da vida (não só na fase de crescimento), precisamos de quem nos apoie, de quem seja pastor para nós. Desse Maravilhoso Pastor, que por nós deu a vida, podemos aproximar-nos com absoluta confiança.

De Deus podemos fiar-nos totalmente: «Vede que admirável amor o Pai nos consagrou: chamou-nos filhos de Deus!» (1Jo 3,1: primeira leitura). Mas Deus não nos chama apenas filhos. Chama-nos a ser pastores para os outros. Esta é a vocação mais nobre do ser humano. Assemelha-nos ao Bom Pastor. Pais e professores existem para serem pastores — para sustentarem pessoas em crescimento, em direcção à maturidade humana.

Oxalá tenham a sabedoria de o fazer com doçura e exigência! Médicos e enfermeiros existem para serem pastores — para ampararem e revigorarem quem é débil de saúde. Oxalá o façam com desvelo e amor! Políticos e governantes existem para serem pastores — para servirem o bem comum, em benefício de todos, sem excluir ninguém. Tomara que o façam com integridade e justiça! Líderes religiosos existem para serem (e são chamados) pastores — para ajudarem os irmãos de fé a crescer em plenitude humana e espiritual. Praza a Deus que o façam com dedicação e autenticidade, buscando eles mesmos crescer espiritual e humanamente! 

Neste domingo, a Igreja ora, de modo particular, pelas mulheres e homens que se consagram a Deus, para servir o seu povo. Que, inspirados por Cristo Jesus, façam das suas vidas um dom precioso à humanidade. Mas oramos também pelos outros pastores (todos nós, nalgum momento da vida o somos), para que sejam fortes e ternos, como o Bom Pastor. O mundo tem já bastantes mercenários (que usam os outros para proveito pessoal) e até lobos (que exploram os outros e semeiam a morte). O mundo precisa de pastores bons, verdadeiros. Precisa de mim, de ti. Que sejamos dadores de vida e de esperança, sobretudo aos mais frágeis. Inspirados pelo Pastor Bom!

Preciosa é a vida que se dá com apreço, sem preço!…

João Pedro Fernandes, CSsR