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oracao jesus 1

'Se alguém quiser seguir-me [...] tome a sua cruz e siga-me' (MT 16, 24). Quando aceitarmos a nossa cruz, toda a nossa realidade se transforma; todo o nosso ego, com todos os seus caprichos, se transforma do bom para melhor, do desagradável para agradável, do insuportável para suportável, etc.

Aceitar a nossa cruz implica olhar para cruz e compreender o seu sentido, o seu mistério e a mensagem que ela contém. Olhar para a cruz, ou seja, recordar aquilo que somos, o real sentido da nossa vida terrena, não deixa de ser uma prática extremamente útil; prática esta que deverá ser diária para uma vida de e com qualidade. A cruz, nas suas dimensões (horizontal e vertical) resume e transmite o sentido da vida que ela condensa: amor gratuito (dar sem esperar nada em troca; a partilha até então é a melhor maneira de viver). Viver uma vida que não tenha a cruz, neste caso, uma direção, (seja ela nas suas diferentes representações variando de acordo com as redes de crenças) como a realidade transversal é simplesmente viver naufragado na ilusão, no vazio, fora do tempo e do espaço, isto é, sem nenhuma orientação.

A cruz é a direção de toda a vida cristã; ela é a marca de todos os Cristãos; ela é a maior herança que herdamos de Jesus. Se tirássemos a cruz do nosso horizonte, seria impossível compreender o Evangelho, palavra de Deus. Efetivamente, ela é a chave que nos facilita a compreensão da palavra de Deus, e consequentemente, a chave que abre a porta da fé.A cruz é a passagem obrigatória para o segundo estágio da vida terrena. Para a perfeita harmonização com o criador e beneficiar da sua misericórdia, é indispensável a passagem pela cruz. A passagem pela cruz é o retorno à vida, vida nova, vida enxertada unicamente no tronco da grande árvore da vida: Deus. Quando olharmos para a cruz, deparamos duas faces. Uma primeira, a face da dor, do desprezo, da humiliação, da maldade, da crueldade, etc. E uma segunda, a da coragem, da esperança, da força, da vitória, da vida eterna, etc.

A morte do 'filho do homem’ (cf. Jo 3, 14) na cruz, possibilitou a cruz de ter um sentido único e singular. Assim, tem sentido e torna compreensível o olhar para a cruz, o porte e o uso da cruz na dia-a-dia (cada um à maneira que lhe convém), uma vez que a cruz também tem a face da proteção e segurança. 'Cristo Jesus que era de condição divina [...] Humilhou-se a si mesmo, tornando obediente até à morte e morte de cruz'(Cf. Fl 2, 5-8). A morte de Cruz no tempo de Jesus era a pena máxima, a mais dolorosa de todas seja pela vergonha e humilhação, seja pela tamanha dor que provoca no condenado. Era pena, morte de cruz, era reservado para os escravos e para os piores criminosos. Com a morte de Jesus Cristo na cruz, a morte de Cruz passou a ser a condição para vida eterna. Depois da cruz, a morte da própria morte, é a vida eterna que nos espera. Portanto, é necessário que aceitemos a nossa cruz, é necessário que tenhamos a nossa morte de cruz hoje, afim de ganharmos a vida nova, de ressuscitarmos com Jesus em cada mistério pascal que vamos celebrando. Seguir Jesus, viver tal como ele viveu, apesar das diferenças cronológicas, exige de nós no mínimo a experiência da morte de cruz. Como ter a morte de cruz hoje? Ou podemos, simplesmente perguntar, como é possível ter a minha morte de cruz e continuar vivo, com o mesmo corpo, comendo a mesma comida, vestindo as mesmas roupas, etc...?

À primeira vista, num olhar desfocado, não é evidente. Mas quando desfocamos o olhar das zonas periféricas, e tentarmos focar no centro, no essencial, naquilo que nos leva mais além, darmos conta de que uma verdadeira conversão se assemelha à morte de cruz; uma verdadeira conversão nasce de uma experiência autêntica da passagem pela cruz. Eu, sempre quando olho pela cruz, tento pôr-me no lugar de Jesus, e pela minha experiência, digo-vos, é simplesmente assustador. Dou-me conta que a minha conversão não está concluída, falta a parte fundamental, a parte central, substituir o meu 'eu' pela minha Cruz (a nossa tendência é de encostá-la num cantinho, e protagonizar o nosso 'eu, que é o seu oposto).

No entanto, a nossa realidade física, corporal, não notamos mudanças. Mas na nossa realidade interior, algo mudará, alguma renovação sentiremos, e isto tronar-se-á visível nas nossas ações diárias. Olhar para a cruz, consequentemente, para Jesus Crucificado, estaremos a olhar para nós mesmos, para o mistério que nos abarca, para as nossas fraquezas e fragilidades, e para as nossas lutas, experiências e conclusões. Quem sou eu? Qual é o sentido da minha existência? Como viver este dom, vida, que me foi dado gratuitamente? Estas perguntas que fazem parte da nossa realidade, e devemos fazê-las diante da cruz e simultaneamente, nela tentar encontrar as respostas.

Com a cruz aprendemos a encerrar a nossa realidade humana, e a aceitá-la (independentemente da sua dimensão). Uma dessas dimensões, que todos tememos, e se pudéssemos evitaríamos a todo custo, e que quero sublinhar é a dor. É impossível olhar pela cruz e não ver a dor no rosto de Jesus desfigurado, no corpo coberto de chagas, na cabeça coroada com espinhos, no lado trespassado pela lança, e nas mãos e nos pés furados pelos pregos. Essas visões dão-nos a imagem de uma dor insuportável.

Mas Jesus não a recusou, aceitou-a, no sentido de mostrar-nos que a dor por maior que ela seja, ela não dura para sempre, ela tem grande impacto na nossa vida porque a recusamos, e uma vez que a aceitamos como parte da nossa realidade ela acabará por desaparecer paulatinamente a medida que a nossa dimensão física (o nosso corpo) caminho para o seu fim. Quando aceitamos a morte de cruz, nos acontece o mesmo que aconteceu com Jesus. Por um lado, tornamos alvo de humiliação, zombarias, gozos, julgamentos, etc. E por outro lado teremos sempre um bom ladrão, que reconhece em nós a filhação divina: 'mestre lembra de mim quando estiver no paraíso'. Aceitar a morte e 'morte de cruz', é o mesmo que aceitar a dor e ao mesmo tempo começar a caminhar para a felicidade plena: a glória. É dizer sim, eu quero sofrer hoje e agora, porque sei que isto é o primeiro passo a dar para a glória.

Na antiga aliança, lá no deserto vemos uma serpente levantada num poste bem alto, de modo a estar ao alcance de todos. E todos que estavam ali, que viviam ali, tendo alguma moléstia provocada pela picada das serpentes, ao olhar para a serpente ficavam curados. Na nova aliança, vemos Jesus Cristo suspenso numa cruz. Isto é, vemos a vida que venceu a morte. Instantes depois da morte de Jesus o centurião confessa, olhando para a cruz: 'este era o filho de Deus (Mt 27,54). A diferença em relação ao cenário da antiga aliança, é que em Jesus, isto é nova aliança, não basta olhar, mas é preciso acreditar para poder encontrar a cura, pois 'quem crê no filho de Deus, tem a vida eterna'(Jo 3, 36). Contudo, olhar para a cruz é uma oração. Simplesmente o ato de olhar para cruz, admirar, contemplar a realidade e mistério que a mesma contém, é uma maneira, prática e com eficácia garantida, de rezar.

Quando olhamos para cruz estamos a rezar e simultaneamente a viver, a experienciar a nossa oração. Olhar pela cruz reconforta-nos, fortalece-nos e torna o nosso espírito cada vez mais imbatível face às provações. Nesta semana santa, e não só, ao invés de estarmos a preocupar em multiplicar as orações assim como as suas formas variadas, por vezes dispersivas, simplesmente, tomemos o nosso tempo e olhemos para cruz, para Jesus crucificado com um olhar contemplativo, que pequenos milagres acontecerão na tua vida.

Gilberto Borges, Seminarista Espiritano.