
Como sempre, o Bispo de Roma não para de surpreender-nos. Num tempo em que a imagem da família está parcialmente fragmentada, fora do centro das atenções dos órgãos estruturantes da sociedade, um convite nos é feito à uma re-atualizacão, não menos desnecessária, do lugar da família na igreja e na sociedade: "Convido a um renovado e criativo impulso pastoral para colocar a família no centro das atenções da Igreja e da sociedade” declara o Bispo de Roma.
Uma das situações que mais me impressiona em Dakar, é precisamente as mães e as crianças deitados nos passeios ora dormindo, ora pedindo esmolas. Para mim não é normal, mas para os nativos é normal, e faz parte da cultura e da religião.
Mas, a verdade é que é impossível falarmos no desenvolvimento, na paz e na justiça social ignorando estas situações que ter, que violam os direitos da pessoa enquanto humana. A família é, e sempre foi, o componente, a estrutura fundamental de todas as civilizações, sociedades, assim como as suas culturas, isto é um fato incontestável. Quando se faz uma construção ignorando a base, espera-se apenas uma coisa: o desmoronamento. Com efeito, construções neste molde não garante a durabilidade, não é fiável e nem inspira a confiança.
No entanto, uma segunda leitura da Alegria do amor, proposta pelo Papa, desta vez numa ótica ativa e prática, e não numa ótica passiva e estático como se tem feito nos últimos cinco anos, evidencia esse erro de base, e simultaneamente, espelha a urgência de uma possível reparação. Ora, tarefa essa que não será fácil, mas é preciso deitar as mãos à obra.
Diz o Papa, apontando pela sagrada família como referência/ modelo para todas as famílias: "Rezo para que cada família possa sentir em sua própria casa a presença viva da Sagrada Família de Nazaré, para que ela possa preencher nossas pequenas comunidades domésticas com amor sincero e generoso, uma fonte de alegria mesmo em provações e dificuldades”. Pois bem, a imagem da família de Nazaré, ela é clássica, uma vez que hoje podemos falar sem timidez nenhuma da família moderna, ou seja, já é possível distinguir a família de ontem e a família de hoje, e as diferenças são enormes.
A família clássica é a mais perfeita réplica da Sagrada Família; é sinal visível da unidade, da união perfeita. Nela está a imprimida a imagem de Deus vivo, uno e trino entre nós.
Mas, hoje temos uma imagem fragmentada da família clássica, como símbolo de uma união perfeita. Eis alguns fatores que colaboraram possibilitando todas a condições para a fragmentação da imagem clássica de família: o abandono das famílias; assistência deficitária às mesmas; maior atenção às finanças do que às famílias; pouca mobilização dos recursos humanos para apoiar as famílias em dificuldades; a monopolização dos ministérios, que competiam às famílias, por parte das autoridades eclesiásticas; a descriminação das famílias ditas "numa situação irregular" segundo as normas da igreja, etc...
No entanto, essas causas tiveram algumas consequências que colocaram em cheque o projeto do Criador tal como é-nos apresentado na sagrada escritura. É e será muito difícil, para não dizer impossível, impossível recuperar a imagem clássica da família. Por conseguinte, não é evidente falar de modo assertivo sobre as famílias hoje, devido aos fortes abalos que sofreram provocados pelas rápidas transformações do mundo e pelas mudanças das mentalidades.
Mas valerá a pena tentar? Um bom pintor não pinta num quadro já pintado; pelo contrário, ele sente constantemente desafiado a pintar um novo quadro, e até pode ser semelhante, mas igual certamente de que não será.
Eis o grande desafio da igreja para os próximos tempos: preservar e consolidar as famílias clássicas, e tentar recriar uma nova imagem de família, tendo em conta as divergências das realidades atuais no âmbito da família como união entre duas pessoas. É um trabalho que requer muita abertura, muita flexibilidade, e sobretudo muita humildade e exige a colaboração de todos. Pois, sem as famílias não se pode fazer a experiência maternal de Deus, e, consequentemente, teremos uma sociedade órfã.
Contudo, que a releitura da alegria do amor e sua aplicação na vida prática, no dia-a-dia das famílias, seja profícuo para todas as famílias, particularmente às famílias cristãs. Que Deus abençoe a todas as famílias mundo inteiro. Bom início do ano da família!
Gilberto Borges, Seminarista Espiritano