Família Igreja Doméstica Testemunha da Esperança

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"Esta obra está repleta de sentimentos e de vivências profundamente humanas, que hoje em dia pouco se fala, mas questões que reclamam a nossa atenção e algum aprofundamento".

Depois de lançar o seu primeiro livro “Paternidade Humana reflexo da Paternidade Divina”, em 2019, o Padre José Cabral, nos presenteia agora com a sua nova obra intitulada “Embaixadores, precisam-se! Escritos na aurora da Esperança”, que brevemente estará disponível para quantos desejarem descobrir a sua beleza e profundidade. O Padre José é natural do Tarrafal, zona de Lagoa, pertence à Diocese de Santiago de Cabo Verde e é vigário da Paróquia de Santo Amaro Abade.

Leia na íntegra a entrevista com o Padre José Cabral e conheça os vários aspetos referentes a essa obra.

COMO SURGIU A IDEIA DESTE TÍTULO E QUAL O SEU SIGNIFICADO?

       O título desta obra tem toda uma história. Há 3 anos fui visitar o centro de recuperação dos toxicodependentes, já bastante conhecido aqui na Ilha de Santiago, a Fazenda da Esperança, situado na zona da Trindade, cidade da Praia. Lá ouvi, pela primeira vez, e de forma desconcertante (porque através do testemunho dos rapazes que lá estavam), a expressão «Embaixadores da Esperança». Nós, quando ouvimos a palavra “embaixador” costumamos pensar, quase que automaticamente, numa figura diplomática, num emissário, no representante de um Estado junto a um outro Estado. Mas este termo, de facto, é hoje utilizado com uma maior plasticidade. Fala-se, por exemplo, de embaixador de uma marca, de um clube de futebol, da ONU, de um projeto social e humanitário, etc., mas sempre com a mesma ideia de fundo: ser um representante, um enviado, aquele que dá voz, que leva o nome, o rosto, que vende sonhos, estabelece pontes, tece e cimenta relações…

        Quem conhece a Fazenda da Esperança ou que, pelo menos, já ouviu o testemunho de alguns dos rapazes que por lá passaram, percebe a profundidade e a importância desta mística, que se torna, na verdade, um imperativo: todos e cada um é chamado a ser um Embaixador da Esperança. E o nosso mundo sente falta disto e de tantos outros embaixadores. Precisamos de embaixadores da esperança, do amor, do perdão, da alegria, da paz, da fraternidade, etc.…

Esta experiência na Fazenda serviu-me de inspiração para um dos contos que vem nesta obra, conto a partir do qual toda a narrativa do livro se constrói e que no final empresta o título para a própria obra. De facto, precisamos de Embaixadores. Em todo lado: na família, na Igreja, na rua, na política, nas camas dos hospitais, na prisão, e sobretudo neste tempo difícil que atravessamos. Precisamos de homens e mulheres que conhecem bem os territórios da dor, da solidão, da rejeição, da fome, etc., para nos ajudar a reconhecer os recantos deste “novo território” para o qual a vida constantemente nos repatria; a reconstruir pontes sobre este mundo naufragado nos ismos e nos caprichos pessoais e humanos; a ler os sinais dos tempos; a compreender o sentido por detrás dos dramas, das perdas, dos fracassos da vida e a forma surpreendente como Deus vai desenhando a nossa história… Embaixadores, precisam-se!

QUAIS AS INSPIRAÇÕES PARA ESCREVER ESTE LIVRO?

       É o fascinante mistério da vida, na sua beleza e contrariedade; são as surpresas dos encontros, das relações verdadeiramente humanas, das descobertas e aprendizagens de cada dia; é o medo, as dúvidas, o vazio e as lutas que cada um vai travando dentro de si. Esta obra está repleta de sentimentos e de vivências profundamente humanas, que hoje em dia pouco se fala, mas questões que reclamam a nossa atenção e algum aprofundamento. Quando comecei a partilhar estes textos, alguém me perguntava se eram baseados em factos reais ou se era apenas ficção. Confesso que não sei responder. Quando escrevo sinto a vida a escorrer-me pelos dedos; procuro mergulhar no interior das personagens, nos seus dramas; caminhar lado a lado com cada um, sem nada dizer nem julgar… Por isso, volto a dizer que esta obra é uma espécie de desabafo, de confidências, de conversas que acabam por denunciar as poeiras, as convicções e os sonhos que trago na alma, na esperança de um ouvido encontrar.

COMO FOI O PROCESSO DE ESCRITA DESTA OBRA?

        Estes textos nasceram como uma espécie de meditação/reflexão pessoal à volta de uma realidade ou de uma situação concreta. Sem nunca ter a ideia de os publicar um dia. No entanto, sempre tive o cuidado de esconder, nas suas entrelinhas, aquilo que são as minhas convicções pessoais, os princípios fundamentais da fé que professo e a minha visão (ainda que em processo de clarificação) sobre o mundo, a sociedade e o futuro. Penso que foi isto que, entretanto, lhes deu este estatuto de «uma obra de arte». O leitor atento perceberá, também, que cada história, cada conto é uma pergunta, uma provocação, um convite à reflexão, ao diálogo; perceberá que eu também, enquanto autor, estarei às voltas com as questões, abrindo porventura algumas brechas pelo caminho, mas sem a pretensão de oferecer resposta ou solução… nem para mim nem para ninguém…. Está tudo em aberto.

QUANDO COMEÇOU A ESCREVER E QUANTO TEMPO LEVOU PARA TERMINAR?

     Não consigo dizer ao certo. Já há algum tempo que tenho vindo a escrever. E tenho muitas outras coisas dispersas por aí. O tempo do confinamento foi importante para as rever e selecionar algumas delas. Mas devo dizer que este livro é apenas uma experiência. Gosto de ler romances, contos, ficções, etc., mas para escrever prefiro sobretudo ensaios, como é o caso, por exemplo, do meu primeiro livro «Paternidade humana reflexo da paternidade divina». Esta obra é diferente. É mesmo um livro de contos. Quis experimentar este registo poético-literário, a pensar também num público mais diversificado.

QUE MENSAGEM ESTA OBRA TRAZ AOS LEITORES NESTE TEMPO DA PANDEMIA QUE ASSOLA O NOSSO MUNDO?

Um apelo apenas: que a nossa sociedade reconheça o erro de ter abandonado/esquecido Deus e, mais gritante ainda, o próprio homem. Esta pandemia veia acelerar a história, obrigando-nos a mudar as páginas e a continuar em frente, mas sem este necessário exame de consciência, que nos leva a uma metanoia radical neste sentido, vamos dar sempre ao mesmo. Não encontraremos saída deste labirinto. Por isso também a minha insistência: precisamos de embaixadores.

COMO ACONTECEU A RELAÇÃO COM A EDITORA?

     Devo dizer, antes de mais, que o desejo de publicar estes textos nasceu com a insistência de algumas pessoas com quem tenho partilhado os meus escritos e que, depois de os ler, curiosamente, partilham a mesma sede, as mesmas questões e a mesma “Esperança”. Depois de alguma insistência, resolvi contactar as editoras. Logo na altura recebi três propostas, de entre elas a da CHIADO BOOKS, que é uma prestigiada editora portuguesa, com sede em Lisboa e centros editoriais em alguns países, como Brasil, Espanha e Itália, e com a qual optei por trabalhar. Foi uma boa escolha. A proposta era claramente mais vantajosa, com maior benefício para o autor. Todo o processo, desde a assinatura do contrato, a seleção dos textos, a revisão, os contatos continuados, foram sempre pacíficos. Estamos agora na última fase, que é a montagem de estratégias para a divulgação da obra, que espero terminar bem.

QUE MENSAGEM DEIXA PARA OS OUTROS JOVENS ESCRITORES?

      A nossa sociedade, nos últimos tempos, perdeu bastante o seu encanto pela arte. E não há dúvida que a revolução tecnológica está na base disto tudo. Ela veio acentuar a efemeridade e a transitoriedade das coisas, colocando tudo na lista dos fast foods; na prateleira dos produtos descartáveis. Hoje tudo é provisório. Mas não podemos viver nesta lógica. É preciso fugir desta corrente; precisamos ter uma atitude positiva e transformadora perante o presente e um grande sentido de responsabilidade para com o futuro. «Criar e multiplicar» continua sendo o grande desafio. Quando ouvimos certas músicas, por exemplo, parece que já não temos mais nada a dizer, que está tudo dito. Mas não é verdade: o nosso tempo está grávido de elementos e de conteúdos novos para a arte. Precisamos, talvez, de outras lentes, de outro espírito. Neste sentido, desafio a todos a acreditarem na sua potencialidade, mas procurando sobretudo a originalidade, a beleza, a bondade, a verdade… Estes são os critérios pelos quais devemos primar no ramo da arte e que verdadeiramente nos salvam das futilidades.