DOM ILDO – HOMILIA NA ORDENAÇÃO SACERDOTAL DE IVANILDO

Caros senhores padres (e diáconos); irmãs e irmãos consagrados, distintas autoridades aqui presentes, familiares do ordinando, queridos irmãos na fé, caro Evanildo (e vós que nos acompanhais através da Rádio Nova).

Vivemos um tempo belíssimo e muito importante na liturgia – o Advento, ele é caracterizado pela sua forte dimensão da Esperança. A nossa esperança, não é uma espera de braços cruzados nem uma certa dose de optimismo que nos leve a enfrentar a vida e o futuro de maneira diferente apenas. Há um fundamento muito sólido para vivermos animados na esperança. Esta Esperança firma-se na Palavra do Senhor e na promessa da Sua Vinda gloriosa. O segredo que anima a vida cristã é Deus que vem ao nosso encontro; Ele vem trazendo e actualizando a salvação prometida desde tempos idos e anunciada pelos profetas e santos patriarcas. A Igreja sempre conservou esta espectativa e é chamada a estar vigilante em todos os tempos, porque não sabemos quando é que esta vinda última e prometida acontecerá.

A marcha da Igreja peregrina acontece, animada e firme, entre duas vindas do Senhor: a primeira que foi o Seu nascimento da Virgem Maria, e vamos comemorar no Natal e a última e gloriosa, que professamos no credo cristão e aguardamos na esperança e em júbilo. Entretanto entre estas duas vindas, neste tempo intermédio, o Senhor faz-se presente de várias maneiras e em diferentes momentos. Como reza um dos prefácios eucarísticos deste tempo: «Agora Ele vem ao nosso encontro, em cada homem e em cada tempo, para que O recebamos na fé e na caridade e dêmos testemunho da gloriosa esperança do seu reino».  São inúmeras as oportunidades que nos são dadas de nos encontrarmos com o Messias Salvador; Ele mesmo providenciou os meios que deixou na Igreja e através dos quais nos encontrarmos com Ele: A Sua Palavra, os sacramentos e sacramentais, o silêncio do recolhimento e da oração ou até mesmo a turbulência do meio da multidão; basta que os nossos olhos, da fé e da caridade, estejam abertos e vigilantes, como recomenda o Senhor.

É o dom do Espírito Santo, que torna realidade, esta misteriosa presença do Senhor no nosso tempo. O Seu Espírito, anunciado pelo profeta Isaías, que hoje nos é presenteado na primeira leitura, continua a ser promessa realizada, cumprida e desce incessantemente sobre aqueles que Deus decide escolher e ungir por Seu amor e para o serviço do seu povo: «Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus».

Continua a realizar-se e a cumprir-se também hoje o que acontecera em Nazaré da Galileia, quando Jesus recebera o Livro de Isaías e proclamou: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Mt 13,54-58; Mc 6,1-6; Jo 4,44). Neste momento, para nós, nesta solene celebração, experimentamos sem dúvida alguma que o mesmo Espírito repousa sobre este jovem diácono para o constituir ministro (um servidor sagrado) do povo de Deus, pastor da Igreja, imagem de Jesus Cristo, O enviado de Deus por excelência. 

Deus dá-nos mais um pastor, aliás por estes dias, deu três para a Diocese de Mindelo, e a nossa alegria e acção de graças é também pelo jovem espiritano ordenado há 15 dias também nesta terra e pelo jovem capuchinho que o Senhor Dom Arlindo, ordena hoje, na vizinha Ilha do Fogo. São bênção e mais bênçãos que recebemos do Alto.

João Paulo II, por ocasião das suas de bodas de ouro sacerdotais, escrevera um livro com um título muito sugestivo: Dom e Mistério; diz ele que no seu nível mais profundo, toda a vocação sacerdotal é um mistério, é um dom que supera infinitamente o homem. Diante da grandeza deste dom, devemos sentir como indigno. A vocação é o mistério da eleição divina: "Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu vos escolhi a vós, e vos destinei para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça" ( Jo 15, 16 ). "E ninguém toma esta honra para si, mas somente quem é chamado por Deus, como Aarão'' (Hb 5, 4). "Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conheci, e antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações"(Jr 1, 5). Estas palavras da Sagrada Escritura, profundamente inspiradas, cingem toda alma sacerdotal.

Dom e Mistério! Eu, hoje, gostaria de sublinhar também, que a nossa vocação é dom e responsabilidade. Da nossa parte, o maior mérito é a disponibilidade, como Isaías que afirmava: «eis-me aqui… envia-me a mim». O Senhor atrai, seduz (como lembra o lema da ordenação do nosso ordinando – Senhor Tu seduziste-me e eu deixei-me seduzir), e da nossa parte não há muito mais do que isto… Sem Ele nada somos! O tesouro, o mistério, é trazido nestes vasos de barro. Ainda assim, muitos poderão cair na tentação de nos julgar grandes e importantes, «gente» de classe ou casta superior e pior ainda, é quando somos nós próprios a fazermos de grandes e importantes, quando o nosso agir é revelador de quem se considera acima dos outros irmãos, quando o exercício do ministério se converte em poder e culto de nós mesmos, desfigurando a beleza da nossa vocação e do nosso ministério. Grande, importante e imprescindível é o Senhor Jesus que deseja vir até junto do Seu povo, por nosso intermédio, apesar da nossa fragilidade e limitações; Ele, com amor e sabedoria, serve-se de nós como um instrumento, torna-nos, pelo poder do Espírito Santo, dispensadores das Suas graças e bênçãos.

Gostaria de destacar, ainda com base no que ouvimos hoje na Epistola do Apóstolo e no Evangelho, dois aspectos que me parecem fundamentais na nossa vida de pastores: A humildade para o serviço e a ousadia de anunciar (ser voz que transporta a Palavra, à maneira de João Baptista). São Paulo diz que: «Cristo Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados». O próprio Filho de Deus, fez-se um servidor; quanto mais nós, que somos seus representantes e sua imagem; Há que cultivar esta atitude e virtude, todos os dias e em todas as circunstâncias, se quisermos ser fiel e dignificar o nosso ministério e dar glória a Deus com a nossa vida.

O outro aspecto, a salientar, encontrá-mo-lo no Evangelho: João Baptista assume-se e realiza aquela imagem, outrora prefigurada como «Voz» que clama no deserto. Nos palcos deste mundo, onde se levantam tantas vozes e ruídos, precisamos de profetas (profetas corajosos da salvação e libertação vindouras), não conformados com este mundo nem com as suas glórias, mas empenhados, sobretudo em conduzir os irmãos para Cristo, o único Messias Salvador – razão da verdadeira esperança e alegria.  Somos chamados a ser voz ao serviço da Palavra; voz de guia que indica caminhos, que aponta para Jesus Cristo, o Caminho. Mas o primeiro serviço que podemos prestar à Palavra, é sermos bons ouvintes e amantes silenciosos dessa mesma Palavra; aquele que anuncia a Palavra, antes a deverá ter acolhida no coração, meditada e vivida. João Baptista testemunha isso com excelente mestria e inspiração.

Ele, em pessoa, é símbolo de uma vivência e identificação profunda e íntima com o Verbo que ele anuncia; o seu estilo de vida, pobre e despreendida, os seus gestos e atitudes (de profunda austeridade) marcam a diferença que simultaneamente desperta curiosidade e suscita credibilidade face à sua missão. Ele é um autêntico contra a corrente – coisa que precisamos de ter a coragem de ser hoje em nossos dias. Padres assim, contra a corrente, fugindo da mundaneidade (para usar a expressão do Papa Francisco) que camuflada ou subtilmente procura infiltrar-se na comunidade cristã e entre os seus ministros; padres apaixonados e identificados com Cristo, o Bom Pastor, é do que a Igreja precisa e faz bem ao mundo; Este é um desafio para todos nós, para ti caro Evanildo, que daqui a instantes serás contado entre os ministros do Senhor na nossa Igreja.

Esta aventura, caro Evanildo, que a Igreja te confia e abraças de coração sincero e generoso, estamos certo, é uma aventura comunitária, é obra, do Espírito de Deus que é sempre fiel. Prova disto, são os muitos irmãos presbíteros que hoje se fizeram presente, neste planalto e a multidão de fiéis que te acompanham com amizade, gratidão e em oração. 

Que Maria, Senhora do Sim, Mãe da Esperança, seja uma permanente fonte de inspiração para ti e uma ternurenta proteção maternal, na tua caminhada vocacional!

+ Ildo Fortes

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