Redes Sociais: Uma nova forma de interação social e de comunicação

As relações humanas têm sido estudadas como uma ciência, a ciência do comportamento humano, no seu relacionamento intra- e interpessoal. O estudo das relações humanas vale-se das outras ciências que estudam o homem no seu relacionamento, como a Psicologia, a Sociologia, a Moral, etc., as chamadas Ciências Sociais.

A sociedade da comunicação está a tornar-se uma realidade. O seu surgimento ocorre no meio de uma época de mudanças sociais de alta velocidade, a nível mundial, presentes em todos os cantos do globo. Sistemas e redes sociais de comunicação ligadas a personalidades, organizações e comunidades ativas e interativas operam em novas estruturas, que moldam transformações nas atividades humanas, nos mundos pessoal, público e do trabalho. 

Por muito tempo se viu na comunicação uma troca de informações entre pessoas que se movem na mesma cultura e usam os mesmos signos e idiomas, com significados determinados. Hoje, comunicação apresenta-se mais parecida com uma Torre de Babel do que com uma linha de transmissão. Olhamos a comunicação como um fenómeno emergente em cada instante, que nasce de um desequilíbrio entre outro ego e o meu ego, entre «eu» e «tu». Se fossemos idênticos e soubéssemos e experimentássemos o mesmo, nenhum interesse nos levaria a comunicar. A noção de comunicação tem originalmente o significado de ter algo ou fazer algo em comum, de estar ligado, de repartir algo. Diversas áreas científicas atribuem ao termo interpretações próprias, focalizando certos aspetos, dependendo do contexto em que o conceito for aplicado. A aplicação mais trivial do conceito encontra-se no contexto da física mecânica, onde se usa o conhecido modelo ou princípio dos vasos comunicantes: dois vasos estão interligados numa relação de influência direta; cada alteração da quantidade do líquido contido num vaso provoca uma alteração correspondente no outro vaso. No modelo técnico de comunicação, distingue-se emissor e recetor, que transmitem mensagens através de um meio chamado canal. No caso ideal de funcionamento, há a transmissão de uma mensagem, sem perdas de dados, do emissor A para o recetor B. Uma transmissão bem-sucedida significa, neste caso, que B recebeu a sequência de dados tal qual A a emitiu. Caso as estações, A e B, puderem trocar de função, o emissor torna-se recetor e vice-versa; trata-se ainda de uma influência direta e linear, porém mútua. A relação entre A e B continua parecida com a relação entre os vasos comunicantes. Esta visão de comunicação entre emissor e recetor nasceu, na verdade, com a tecnologia de transmissão de sinais à distância, nomeadamente com a telefonia. É isso que distingue este modelo do dos vasos comunicativos – é que, além de emissor e recetor, o modelo trabalha com um terceiro elemento, o canal.
Por muito tempo, e praticamente até os dias de hoje, este modelo vem sendo aplicado também à comunicação humana em geral. Para tentar adaptar esse modelo de comunicação para as ciências sociais, emissor e recetor tiveram que ser pensados como sistemas não triviais, não determinados um pelo outro, mas como sistemas que processam sentido, cada um do seu modo. Os comunicadores, quer emissor, quer recetor não podiam mais ser vistos como sistemas mecanicistas, como se fossem, por exemplo, dois aparelhos de telefone ou duas disquetes. Adaptou-se o modelo técnico a uma realidade social de comunicação interpessoal, cujos participantes formam expectativas baseadas na sua experiência e se orientam nelas. Isso quer dizer que um modelo social de comunicação tem de levar em conta que os emissores escolhem as suas informações dependendo das reações que esperam do recetor. Eles antecipam possíveis reações, esperando-as e imaginando-as, e orientam as suas mensagens conforme esta antecipação. Todo este processo já pouco ou nada tem a ver com a transmissão da mensagem enquanto fenómeno técnico, já que o que importa é o conteúdo da informação. Tratando-se de sistemas psicossociais, já não existe uma relação linear de causa e efeito entre emissor e recetor. A causa e o efeito da comunicação podem ser constatados apenas numa observação posterior do comportamento do emissor e do recetor. São eles que marcam o processo de comunicação conforme as interpretações próprias de cada um. Aparecem aqui os chamados aspetos socio-cibernéticos da comunicação, que a tornam extremamente complexa e, por isso, incontrolável, pelo menos ao nível interativo.
Vivemos numa realidade em que a tecnologia está a transformar rapidamente o estilo da comunicação humana, cada vez mais mediatizada por meios mecânicos e eletrónicos. E isto, por um lado, facilita a comunicação a grande distância e com um grande número de pessoas mas, por outro lado, pode dificultar o aproveitamento de toda a riqueza e de todas as possibilidades da comunicação direta entre os indivíduos.
Os media digitais não são apenas mediadores da relação do ser humano com o seu ambiente envolvente, mas também da sua relação com os outros. Por serem interativos e envolventes e porque se articulam em rede, são propícios à comunicação de muitos-para-muitos e, portanto, são mediadores por excelência da interação social.
Quando falamos desta nova forma de interação social e de comunicação, também falamos do seu impacto nas relações humanas. Sobre o impacto da sua mediação na relação e interação social, é possível organizar as propostas de vários autores em duas posições antagónicas. Alguns autores, como Marshall McLuhan e Barry Wellman, consideram que as redes sociais online intensificam a comunicação e reforçam as relações. Outros, como Zygmunt Bauman e Sherry Turkle, consideram que os media digitais promovem isolamento, tornam as relações mais superficiais e fomentam o individualismo, ao proporcionarem maior poder de escolha e decisão aos indivíduos.
Marshall McLuhan usa o seu conceito «retribalização» para avançar com a noção de que as tecnologias digitais propiciam um maior envolvimento na comunidade e reforça a comunicação, que se assemelha à que ocorria na era tribal. Assim, chegou à conclusão de que o individualismo, a especialização, a fragmentação, a privacidade, a lógica sequencial e a racionalidade linear, que eram característicos da literacia, estavam a dar lugar à vida em comunidade, à simultaneidade e à perceção da realidade como um todo integrado, aspetos que eram característicos da era tribal, com novas características e configurações. Por exemplo, a influência dos media eletrónicos não se faz sentir apenas em pequenas comunidades, mas à escala global, o que levou Marshall McLuhan a propor o conceito da «aldeia global». O homem eletrónico, tal como o tribal, vive envolvido no seu ambiente e na vida em comunidade, mas a partir da conectividade constante à sua rede de relações próximas a partir de plataformas, como por exemplo, o facebook e smartphones.
Por outro lado, temos a perspetiva de Zygmunt Bauman, que aprofunda este tema partindo do seu conceito «amor líquido». O autor considera que há uma intensificação do individualismo na sociedade contemporânea, que resulta da liquefacção das estruturas sociais da modernidade e do aumento da complexidade e da incerteza que caracterizam a sociedade contemporânea, que passa a exigir um estilo de vida mais instável, flexível e adaptável. A dissolução ou a flexibilização dos laços, tanto nas estruturas sociais como entre os indivíduos, é um requisito da vida líquida, mas tem como consequência o aumento da instabilidade, da complexidade e da incerteza que a originaram, constituindo, assim, um círculo vicioso que conduz, em última instância, a uma maior fragilidade dos laços e das relações sociais.
Esta liquefação do amor apresenta um carácter paradoxal: por um lado, os indivíduos necessitam de se manter livres e independentes para se poderem adaptar às constantes mutabilidade e incerteza da vida líquida; por outro lado, necessitam também de se relacionar com os outros, acabando assim por criar laços e relações líquidas, ou seja, frágeis, efémeras, mutáveis e flexíveis. O autor refere, a este propósito, uma substituição do conceito «relação» pelo conceito «conexão» na modernidade líquida, estando a conectividade associada à superficialidade e à flexibilidade das redes tecnológicas digitais. Assim, as redes sociais passam a configurar-se à semelhança das redes tecnológicas que as medeiam.
Portanto, é da relação entre a interação social e a forma particular de mediação dos novos media que emergem novos padrões e tipos de interação. Os media digitais são, ao mesmo tempo, fator moldador da interação social e resposta para as necessidades dos indivíduos, pois possibilitam-lhes a flexibilização dos laços que, segundo Zygmunt Bauman, é um requisito de um estilo de vida líquido, adaptado à modernidade líquida, ao mesmo tempo que possibilitam a sua manutenção e o seu reforço, ainda que numa configuração mais superficial, efémera e flexível.
O modo como as redes sociais online funcionam fez surgir algumas designações do modelo da sociedade, como «sociedade em rede». Esta é designada pelo sociólogo catalão Manuel Castells como uma sociedade cuja estrutura social assenta em redes ativadas pela microelectrónica, que processam informação em circulação através de tecnologias digitais de informação e comunicação. O que torna as redes sociais atuais diferentes é precisamente o facto de serem suportadas por uma infraestrutura tecnológica digital que não só lhes permite ultrapassar os constrangimentos do tempo e do espaço, mas também propicia a sua proliferação, bem como a comunicação através dela.

 
Por António Martins
Mestre em Teologia
Com o Trabalho final sobre: O uso da rede social facebook na comunicação da Fé Cristã
 
Bibliografias:
G. STOCKINGER, Para uma Teoria Sociológica de Comunicação, Editora Eletrônica Facom - UFBa, Salvador / Versão 2.0, 2001, disponível em: http://simaocc.home.sapo.pt/e-biblioteca/pdf/gottfried_sec2.pdf;
P. DIAS, Viver na Sociedade Digital: tecnologias digitais, novas práticas e mudanças sociais, Ed. Principia, Cascais;
O Sr. MCLUHAN, A Galáxia de Gutenberg em face da Era Electronics: as civilizações da idade oral para a imprensa , Ed. MAME;
Z. BAUMAN, Liquid Love, sobre a fragilidade dos laços humanos , Cambridge; Malden: Polity Press, 2003;
M. CASTELLS, A Sociedade em Rede: A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, vol. I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 8, 2005;

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